Quando vencer o câncer é apenas parte da jornada.
Felizmente, o tratamento oncológico mudou. As armas terapêuticas melhoraram e, consequentemente, houve um aumento da expectativa de vida e do número de sobreviventes do câncer.
No entanto, ao final de tratamentos diversos como cirurgia, quimioterapia, radioterapia e/ou bloqueio hormonal, muitos pacientes enfrentam efeitos colaterais duradouros – entre eles, as disfunções sexuais. Elas são diversas, comumente severas e com grande impacto na qualidade de vida e bem-estar emocional.
Historicamente negligenciadas, essas condições tem recebido atenção crescente nos chamados programas de sobrevivência (survivorship programs), que buscam dar suporte aos pacientes mesmo após o término do tratamento oncológico.
O foco não é mais apenas a cura da doença, mas sim a plena reintegração do paciente à sua vida pessoal, sexual e social.
O que muda com o câncer?
Diversos tipos de câncer e seus tratamentos podem impactar a sexualidade masculina:
🔸 Cirurgias pélvicas (como prostatectomia ou cistectomia) podem comprometer nervos e estruturas vasculares responsáveis pela ereção;
🔸 A radioterapia pode levar a alterações progressivas na vascularização peniana e fibrose dos tecidos;
🔸 O bloqueio hormonal, usado no câncer de próstata, reduz libido, energia e função erétil;
🔸 O impacto psicológico do diagnóstico e das mudanças corporais também é profundo — e muitas vezes subestimado.
Por que falar sobre isso importa?
Disfunções sexuais não são um “efeito colateral menor”. Elas atinge a autoestima, os relacionamentos e a identidade masculina. Muitos homens sofrem em silêncio por vergonha ou por acreditarem que não há solução. Mas há. E a medicina sexual moderna está preparada para ajudar mesmo os casos mais severos.
Um dos objetivos centrais do capítulo publicado por mim, Prof. Miguel Srougi e Prof. José Cury (in memoriam) no Tratado de Oncologia da Sociedade Brasileira de Urologia (2024) foi justamente trazer luz a esse tema com embasamento científico, sensibilidade e estratégias práticas.
Como abordar a disfunção sexual no paciente oncológico?
- Avaliação individualizada
Cada paciente tem uma história única. O tipo de câncer, o tratamento realizado, o tempo desde o diagnóstico e os fatores emocionais devem ser cuidadosamente considerados. - Discussão aberta e acolhedora
Muitos homens não falam espontaneamente sobre sexualidade após o câncer. Cabe ao profissional criar espaço seguro para abordar o tema com naturalidade e sem tabus. - Equipe multidisciplinar
Urologistas, oncologistas, psicólogos, fisioterapeutas e terapeutas sexuais podem atuar em conjunto. A recuperação é mais eficaz quando há sincronia entre as áreas.
E os tratamentos?
A reabilitação sexual pode incluir:
✔️ Terapias orais com inibidores da PDE5 (como sildenafila ou tadalafila);
✔️ Autoaplicação de medicamentos intracavernosos (Trimix, Bimix) para ereções eficazes;
✔️ Dispositivos de vácuo peniano com ou sem anel constritor;
✔️ Implantes penianos (próteses maleáveis ou infláveis), é uma ótima alternativa quando outros tratamentos falham ou não há adaptação com os tratamentos mais simples!;
✔️ Suporte psicológico, essencial para lidar com autoestima, ansiedade de desempenho e imagem corporal.
Importante: A abordagem ideal respeita o momento clínico e emocional do paciente. Não existe um único caminho, mas sim uma trajetória construída em conjunto.
Reabilitação sexual é qualidade de vida
Recuperar a vida sexual após o câncer não é vaidade — é dignidade.
É reencontro com o prazer, com a intimidade e com a própria identidade.
Essa é uma bandeira que faço questão de levantar!
📌 Outras contribuições recentes sobre o tema:
https://www.icsm2024.org/publications
Minha participação neste comitê internacional de revisão dos consensos da sociedade internacional de medicina sexual foi, além de uma grande honra, uma experiência única.
Trata-se de um esforço imenso da ISSM, que ocorre a cada 10 anos, e que sempre acompanhei atentamente como leitor das publicações no campo da sexualidade masculina. Ser convidado à participar foi uma grande felicidade.
Pude participar de discussões com os médicos pesquisadores que mais admiro, além de revisar de maneira aprofundada a literatura mudial sobre os porquês das dificuldades enfrentadas após as diversas modalidades terapêuticas para o câncer, bem como quais são as melhores ferramentas para apoia-los a retomar a vida sexual em sua plenitude.

Medicina humanizada e especializada na saúde sexual masculina.
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Chefe do Grupo de Medicina Sexual do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP).
Graduado em Medicina, Cirurgia Geral e Urologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Doutor em Urologia pela FMUSP.
Fellowship em Medicina Sexual pelo Memorial Sloan Kettering Cancer Center (MSKCC – Nova Iorque, EUA)
Estágio externo na Harvard Medical School (Boston - EUA)
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